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terça-feira, 7 de julho de 2009

O PLANEJAMENTO DO FUTURO - Monteiro Lobato - 1956

Em seus últimos dias de vida mesmo doente e cansado, Monteiro Lobato atende ao pedido de colaboração feito por seu amigo Diaulas Riedel, para o "Almanaque do Pensamento".
Trata-se da última historinha do Sítio do Picapau Amarelo em que o escritor expressa seu respeito por seu público leitor – as crianças. E para os adultos faz um alerta sobre o verdadeiro ato de educar. Publicado pelo Almanaque em 1956, o texto inédito indica que são páginas aproveitadas de uma possível "História da Ciência para as Crianças", que começou a escrever, mas infelizmente não concluiu.




O PLANEJAMENTO DO FUTURO


Monteiro Lobato


O Coronel Teodorico não concordava com o modo de Dona Benta tratar os meninos.
- A comadre dá muita liberdade para eles. Criança não é assim que a gente trata. Criança a gente doma, como os potros.
E era assim na casa dele. Havia castigos: puxões de orelha, cocres, chinelo – e ficar sentado num canto – e não ter sobremesa no jantar – e não ir à cidade no domingo. Apesar de tudo isso, seus filhos não eram bem educados e não faziam progressos nos estudos.
Dona Benta respondeu:
- Isto de educar crianças é a arte mais delicada que existe. O mesmo que lidar com broto de roseira. Qualquer coisa errada que a gente faça para um broto, ele "sente" e fica marcado pelo resto da vida – para bem ou para mal.
E Dona Benta foi aí além, a filosofar em termos muito acima da compreensão do coronel, tão acima que ele cochilou e dormiu.
Era sempre assim nas vistas do fazendeiro à sua comadre; quando a conversa se elevava um pouco, e Dona Benta entra a discorrer com a sua elevação de sempre, ele "tirava um corte".
As idéias de Dona Benta sobre a educação eram muito especiais. Quem entrasse em sua cabeça assistiria ao jogo do seu pensamento. (É interessante o jogo de futebol do nosso planejamento. Um jogo que não se interrompe nunca – só quando dormimos. Um solilóquio. Falamos com nós mesmos numa conversa mental que não tem fim. Certas pessoas quando perdem o perfeito equilíbrio, "falam sozinhas", na rua ou onde estejam. Muito frequente ouvimos esta frase: "fulano anda falando sozinho", com o significado de "Fulano está desarranjando da cabeça”. Mas mentalmente não há no mundo quem não viva a falar sozinho, pois que o ato de pensar é isso).
Enquanto o seu compadre Teodorico roncava na cadeira de balanço, Dona Benta falava sozinha.
- "Criança a gente doma, como os potros!" disse o compadre e como quase todas as pessoas pensam – é aqui no sítio que eu vejo exatamente o contrário. Não domei Pedrinho, nem Narizinho, nem Emília, e duvido que haja crianças mais bem educadas. "Bem educadas" no verdadeiro sentido, não no sentido comum; pois o que vejo por aí é confusão de "bem educado" com "bem comportado", isto é, com a submissão das pobres crianças a todas as ordens dos pais ou professores. "Sente-se com as mãos sobre o colo e fique quietinha – e a triste criança, o bichinho mais irrequieto da natureza, fica ali a constranger-se e a bocejar de tédio, para que umas toupeiras, como este meu compadre, se rejubilem e digam: "Estão vendo como é bem educada esta criança?”
E há a significação da criança! Para quanta gente as crianças não passam duma simples annoyance, como dizem os ingleses! Para outras são brinquedos, enfeites da casa, bonecas vivas. Poucos tem a verdadeira noção do que é criança para o mundo, ou para a humanidade. É a própria humanidade na parte em que se vai formando o futuro. O futuro!... Palavra tremenda. O futuro é tudo, é a continuidade, a perpetuação. O passado da humanidade é de alguns milhares de anos. O presente é o dia de hoje. O futuro é toda a imensidade de tempo que o homem possa viver neste planeta!... O presente é 1, o passado é 10 – o futuro é 1.000 ou 1.000.000 – que sabemos nós?
Tudo o que a humanidade de amanhã vai ser está em germe na criança de hoje. Se fossemos mais inteligentes e compreensivos, a vida na terra poderia tornar-se edênica. E o caminho para isso seria dos mais simples: considerar a criança como o broto do futuro e condicionar esse futuro por meio do condicionamento do broto. Podíamos planejar o futuro! Fazer do futuro um sonho de felicidade e beleza, com o simples condicionamento do broto!
Narizinho apareceu na varanda. Veio dizer que Emília estava judiando do Visconde.
- Judiando como? – perguntou Dona Benta.
- Judiando mentalmente, vovó. Quer que o Visconde mude de idéia, como a gente muda de roupa.
- Que idéia ela quer que o Visconde mude?
- Há um broto de roseira que teima em se voltar para o lado do sol, isto é, para fora da janela. Emília não quer isso. Quer que o broto se volte para dentro, a fim de que quando o broto der rosas ela nem precise levantar-se na redinha para apanhá-las – será só espichar a mão. E o Visconde diz que o broto age assim por causa dum tal "tropismo", que é a irresistível tendência dos brotos de se voltarem para o lado em que há mais luz.
- E que tem isso?
- Tem que Emília não quer que o Visconde admita o tal tropismo.
Dona Benta riu-se. Aquelas crianças brincavam com expressões científicas como outras brincam de bolinhas ou pelota. Emília a judiar do Visconde por causa do tropismo - a atração ou repulsão que certas substâncias ou fenômenos exercem sobre o protoplasma! Ali no broto da roseira era o fenômeno luz que atraía o protoplasma do broto...
- luz!... falou Dona Benta.Nem Einstein sabe o que é a luz! Tropismo: atração que a luz exerce sobre o broto humano, a criança?
Quantos problemas, meu Deus! Mas uma coisa me parece certa: está nas mãos do presente condicionar o futuro por meio da moldagem dessa cera mole chamada criança. Desde que a criança é a massa de que sai o futuro, se soubermos lidar com sua massa daremos ao futuro a forma que quisermos – que planejarmos.
E a boa velhinha devaneou longamente sobre as tremendas possibilidades duma coisa que viesse substituir a atual imbecilidade a que damos o nome de educação, e que seria o Planejamento do Futuro – O Plano Quinquenal que da cera de hoje fizesse sair um Futuro Maravilhoso, planejado, estudado, idealizado, em vez do que, como até hoje, o que o Acaso quer que saia.
Nesse momento o coronel acordou. Bocejou, espregriçou-se.
- Parece que dormi, comadre...
- Dormiu, sim, uma boa soneca.
O coronel acabou de despertar e recordou-se do que estava conversando. Retomou o fio das idéias e disse:
- Pois é como eu estava dizendo, comadre. Criança a gente doma, com os potros.
- E se em vez de as domar nós as condicionássemos de acordo com um sábio planejamento do futuro?
O Coronel Teodorico abriu a boca. Piscou três vezes. Não entendeu nada.
Dona Benta suspirou, e lá consigo disse para si mesma:
- A dificuldade é essa. Esse idiota do meu compadre é o 90 por cento da humanidade. Nada podemos fazer sem o apoio – mas como obter apoio de quem não compreende?
O fazendeiro bocejou de novo e tentou prosseguir em suas teorias, mas Dona Benta o interrompeu:
- Durma, compadre. Deixe isso de pensar para mim...


(Almanaque do Pensamento – São Paulo, 1956)

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