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quarta-feira, 12 de junho de 2013

A MALDIÇÃO DO AMOR ETERNO





Por Prof. Msc. João Oliveira

               Depois de quase duas horas andando pela floresta, fora da trilha, finalmente estava sentada diante da velha. O medo era o sentimento mais forte naquele momento, o estômago parecia querer se fechar em si mesmo e as pernas tremiam diante da pavorosa figura.

- “O que deseja minha criança...?” – Falou a bruxa com a cabeça virada para o lado esquerdo bem próximo ao rosto da jovem mulher, que sentia o calor e odor de sua respiração.

- “Conseguir o amor perfeito!” – disse com dificuldade. – “As pessoas me disseram que a senhora têm uma poção mágica para vender que garante o casamento para toda vida.”

- “Tenho sim!” – riu a velha torta –“Mas não vendo, eu amaldiçoo as pessoas com ela!”. Uma gargalhada típica de bruxas velhas invadiu a floresta assustando os pequenos animais.

- “Você quer ser amaldiçoada a ter um amor eterno?” – finalizou a velha piscando um dos olhos sem cor.

- “Mas, como pode ser considerada uma maldição ter alguém e ser feliz durante toda a vida?” - Questionou a jovem: - “Isso não seria uma benção?”

               A velha, nada disse e, em silêncio, foi bem devagar até um canto da casa miserável, pegou um pequeno frasco, coberto de poeira, com um líquido vermelho fluorescente e, levantando-o até perto do lampião, resmungou em tom profético:

- “Esta poção contém a maldição de dar, a quem dela beber, a condição de encontrar a pessoa com quem viverá feliz por toda a vida! (gargalhada) Mas, a maldição também condena a essa pessoa a ter de tirar, todos os dias, um pedaço do próprio coração e servir como alimento para manter o seu amor perfeito.”

-“Como!” – falou assustada a jovem –“Se eu tirar um pedaço do meu coração, todos os dias, em algum tempo não terei coração nenhum!”

               Num rápido movimento a velha puxou o cabelo da moça para trás da cabeça e de súbito jogou o líquido pela boca da jovem adentro e rindo gritou:
-“Tarde demais! Já está amaldiçoada!” 

               Algumas semanas depois a moça amaldiçoada encontrou um rapaz. Os dois se envolveram e, como era de se esperar, se casaram. Foram viver próximo à floresta, já que ele tinha como profissão ser lenhador. Ela sempre realizando o seu compromisso para manter o amor eterno, todos os dias, se escondia no banheiro e, com uma faca bem pontuda e curva, tirava um pequeno pedaço do próprio coração e servia junto com a comida ao seu marido. A dor era quase insuportável nos primeiros anos, no entanto, com o passar do tempo, ela foi se acostumando.

               Vieram os filhos. A vida foi seguindo um rumo feliz e, claro, o seu amor jamais diminuiu e sempre foi correspondida pelo marido. Claro, às vezes tinham divergências, mas nada que não durasse uma noite apenas.

               O trabalho do lenhador o foi levando, cada vez mais, para o interior da floresta. Um dia a já idosa senhora foi lhe levar o almoço (com o pedaço do coração dentro, como sempre) e se descobriu bem próxima à casa da velha bruxa. Disfarçou um pouco ao sair e pegou o rumo do casebre.

               Suas suspeitas se tornaram reais: a velha ainda tinha a mesma aparência. Os anos se passaram, mas ela continuava com as mesmas marcas no rosto, como se os anos nunca avançassem neste lugar.

- “Olha quem está de volta!” – Gritou a bruxa – “O que quer agora? Não deu certo a maldição? Olha! Eu não aceito devolução depois de 30 anos!” 

- “Não é isso... deu tudo certo, estou casada, amo meu marido, ele me ama também e somos muito felizes há mais de 30 anos. É outra coisa, eu não entendo, como posso arrancar um pedaço do coração, todos os dias há tantos anos e ainda estar viva???”

               A velha bruxa da floresta colocou as duas mãos sobre a barriga, se curvou para trás e deu a mais forte gargalhada que as antigas árvores já ouviram. Ela saltava com os dois pés juntos como uma criança se divertindo.

- “Mas é tão claro minha criança! – respondeu em meio aos risos estridentes – “Ele também foi amaldiçoado! Quando você não está vendo, ele também retira um pedaço do próprio coração e, te dá, preenchendo o espaço do que você tirou para servir a ele. Por isso o amor não morre, um completa o que falta no outro.”

               A mulher foi embora de cabeça baixa, a velha bruxa ainda existiu por alguns anos. No lugar da floresta hoje está a sua cidade e, é bem provável que o casebre da bruxa ficasse bem próximo de onde você mora agora. Não temos mais a poção em frascos para beber, o máximo que podemos fazer querendo manter um amor para a vida toda, é dar o melhor de nós, todos os dias, para a pessoa que amamos. Isso pode doer no início, pois, é um processo de mudança, deixar de ser um para viver a dois.



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