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quarta-feira, 23 de maio de 2012

SIRI NA LATA



“Pode uma formiga, atrapalhar o voo de um avião? Pode! Basta o piloto deixar de no céu prestar atenção, para focar neste inseto, pequeno, longe, lá embaixo no chão.”

                A grande maioria das pessoas cria seus próprios limites por não acreditarem nas suas potencialidades. Estes seriam escudos de força, correntes invisíveis ou muralhas psicológicas que funcionam como elementos impeditivos de uma jornada produtiva na busca dos objetivos planejados, isto é, quando a mente permite que se elabore um projeto de vida.

                Como se dá o processo de acomodação consigo mesmo? Alguns pontos devem ser elencados para trabalharmos esta ideia. Não são os únicos nem definitivos, mas já ajudam a delinear o problema.

1)      Ambiente reduzido – Aqui fica clara a imagem do “Siri na Lata”. Estando a pessoa limitada fisicamente, espaço real, para expandir suas produções ela direciona sua atenção para as pessoas mais próximas e começa a desenvolver uma angústia interna, por falta de realizações. Isto pode mobilizar seus atos: para frente - sai em busca de espaço - ou aterra de vez suas capacidades.

2)      Barreiras psicológicas – Caso a autoestima não seja desenvolvida nos primeiros momentos de autonomia o sujeito pode criar a idéia – isso é mais comum do que gostaríamos de acreditar ser possível – que o sofrimento é parte de um processo de culpa ou merecimento. Ele não se projeta no futuro vencedor, pois, não é capaz de crer ser merecedor de prêmio algum.

3)      Foco Dissimulador – Quando não existe espaço físico e as barreiras psicológicas estão claras para a estrutura do sujeito, ele se volta para assuntos e temas menores para ocupar seu tempo em resolução de coisas insignificantes no projeto maior. Agora a figura da formiga atrapalhando o piloto no avião está clara?

                O quanto de tempo e energia dispensamos aos problemas dos outros – mesmo tentado ajudar é bom deixar claro isso – é, de fato, uma fuga dos nossos próprios dilemas. Naturalmente, devemos conhecer alguma pessoa, ou pode ser você mesmo, que acredita ter a obrigação de ajudar todos que apresentam algum tipo de sofrimento. Prontamente, como uma boa pessoa, o sujeito “deixa os próprios problemas” e se ocupa do que está afligindo o próximo.

                Isto não é ser bom.  

                Podemos analisar este ato como uma forma de fuga da própria vida:  – “Já que a minha vida não tem jeito mesmo, deixa eu me ocupar com a dos outros.”

                Este não é o pior dos Modus Operandi desta situação. Existe coisa ainda pior!

                Conhece o colecionador? O torcedor fanático? O fofoqueiro de plantão? Aquele perfil de sujeito que vive uma novela ou filme como extensão da vida? Ou o fã apaixonado que segue seu ídolo com fotos, discos , shows e sei lá mais o quê? E o que dizer de quem passa horas na frente de um computador em redes sociais?

                Pare e pense: não estão também deixando o próprio projeto e investido recursos em algo diferente que a elaboração do “Eu” próprio?

                Claro. Naturalmente, em sua própria defesa, caso tenha se encontrado em algum ponto deste texto, você deve estar pensando que estou vendo imensas âncoras de chumbo sobre guardanapos de papel.

                Quando trabalhava em rádio, no inicio da década de 80, ouvi uma fala interessante de um grande político sobre a programação das emissoras FM da época: “- Toca tanta música boa nas rádios que não dá, nem tempo, desta juventude pensar em se revoltar com alguma coisa!”

                Um bom truque para produção tornar sua mente afiada e focada no seu próprio projeto é criar rotinas de construção para todos os dias. Escrever, para mim, é uma delas. Mas é possível utilizar outras como: ler, cultivar plantas, criar animais, se voluntariar em projetos sociais, praticar esportes...

                Quando a mente vê algo ser realizado, mesmo que pequenas tarefas, o nosso cérebro fica mais confiante que somos capazes de finalizar nossos objetivos. Neste ponto a Ludoterapia trabalha muito bem os jogos de perder e ganhar com crianças onde elas começam a entender o funcionamento da vida aceitado as vitórias com satisfação e as derrotas como possibilidade de desenvolver novas estratégias no jogo.

                Em verdade, sou obrigado a confessar, não há um livro de leis dizendo exatamente o que é certo fazer para conseguir um melhor projeto de vida. Cada ser humano é único com suas próprias facilidades e limitações, no entanto, existem observações, comprovadas, da maneira errada de se viver.

                Antes de focar fora, tente encontrar dentro.


João Oliveira
Psicólogo  CRP 05/ 32031
Mestre em Cognição e Linguagem

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