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segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

TANATOSE BRASILEIRA



Por João Oliveira




Presente tanto em alguns mamíferos como entre os anfíbios, répteis e artrópodes a tanatose é a capacidade de se fingir de morto para escapar de um predador qualquer. A gazela, por exemplo, quando percebe a presença próxima de um bando de leoas na caça fica imóvel tal qual uma estátua. Outros animais são mais teatrais e chegam a ficar por até 30 minutos na mais completa imobilidade e em posição que simula o quadro post-mortem. Sapos e aranhas são experts nessa prática causando verdadeira confusão até mesmo entre pessoas que lidam com esses animais todos os dias.

Pesquisadores já foram capazes de induzir a bradicardia por medo provocando o surgimento de um estado letárgico, quando os músculos se enrijecem e o corpo paralisa, apenas apresentando fotos de pessoas feridas a um grupo de voluntários. Esse estado psicológico que atua diretamente na estrutura física e comportamental é real entre os humanos, não se trata de uma brincadeira de mal gosto e funciona quase com o mesmo perfil dos citados animais: fingir de morto e esperar que o perigo passe.

Naturalmente esse efeito ocorre quando estamos diante de uma catástrofe. De uma forma estranha, todos nós, nos mantemos calmos em situações que, pela lógica, deveríamos ter comportamentos mais céleres como sair correndo, por exemplo. Esse movimento de calma letárgica pode nos custar caro, pois toma o tempo diminuindo as possibilidades de uma possível reação de fuga. Profissionais que lidam com o perigo de forma constante são submetidos a treinamentos rigorosos para não terem de pensar de forma analítica diante de situações onde as decisões devem ser tomadas em milésimos de segundos.

Bombeiros militares, mergulhadores profissionais, pilotos de grandes aeronaves são submetidos de forma regular a testes de percepção diante de estresse para garantir não somente a própria sobrevivência, mas, também as das pessoas as quais as vidas dependem de suas rápidas ações.

Esse, como já foi bem explanado, é o fenômeno da tanatose reconhecido pelas ciências e já comprovado e testado muitas vezes. Mas, aparentemente, uma nova forma está se espalhando como um vírus e tomando do perfil comportamental de uma imensa parcela de nossa sociedade de, tal qual da estátua de David, feita por Michelangelo, tem um olhar que parece estar atento, no entanto, não se move: nada faz!

Estranhamente certos movimentos que ocasionalmente vão as ruas só ocorrem porque possuem ligações partidárias ou com representações de classes o que não invalida em nada suas ações, mas, até certo ponto, inibe a participação de outras camadas da sociedade que apenas observam pelos noticiários ou criticam as interdições das ruas durante tais eventos.

Ocorre que, o sistema oferta possibilidades de manifestações mais efetivas além, é claro, das garantias dos direitos individuais e coletivos resguardados pelo Artigo 5º de nossa Constituição Federal. Muitos instrumentos legais, quando provocados, podem surtir efeitos sem que nenhuma rua seja tomada por pneus em chamas.

Os Ministérios Públicos – federal e estadual – mantém ouvidorias permanentes que podem ser acionadas de forma eletrônica sem a necessidade de deslocamento físico. O sistema eletrônico permite o acompanhamento das denúncias e, caso deseje o denunciante, de forma completamente anônima. Da mesma forma os Procons trabalham buscando garantir os direitos dos consumidores. Todavia, esses órgãos necessitam de provocações para serem mais assertivos em suas ações de controle e vigilância e para isso é necessário um movimento de quem se sente ferido de alguma forma.

A transferência de responsabilidade para os representantes legitimamente eleitos pode não ser exatamente a melhor opção. É possível que, nesse momento, eles tenham preocupações mais pessoais que coletivas e isso pode criar uma neblina no direcionamento de esforços em prol de soluções.

Cabe a cada um dos indivíduos dessa nação que se sentem tocados de forma negativa, feridos em seus direitos ou se explorados ilegalmente, um movimento ético dentro dos formatos adequados e visíveis a legislação. De nada adianta panelas nas janelas, ou passeios pela orla de Copacabana, pois, apenas o que está nos autos está no mundo ou, ao contrário: “Quod non est in actis non est in mundo”.

Entenda “mundo”, contido nesse velho axioma, como ato real e válido, uma verdade que pode ser tocada pelo universo jurídico da mesma forma que um firme apoio garante um movimento para o deslocamento da alavanca. A tanatose brasileira deve ser apenas fruto da falta de informação o que, de forma responsável cabe a todos nós desvelar, pouco a pouco, o manto confortável da ignorância.

Somente isso é o que deve estar impedindo o surgimento de abalos que levem a destruição das estruturas que foram fortificadas, durante séculos, pela paralisia generalizada de um povo bom, que espera apenas retribuição pelos sacrifícios diários que fazem em prol de sua pátria.

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