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sexta-feira, 18 de setembro de 2015

EXPATRIADOS NA PÁTRIA


Por João Oliveira (Psicólogo CRP 05/32031)


As mídias nos enchem de imagens de refugiados de todas as partes do mundo com sofrimento por não ter um local seguro para viver. São cenas que nos levam a uma reflexão sobre a realidade sangrenta de certos países e do desespero dessas pessoas que, muitas vezes, perdem a vida antes de conseguirem chegar ao local de destino seguro.

Aqui, em terras brasileiras de um povo amigo e acolhedor, tal realidade nos choca ainda mais por ser algo absolutamente incompreensível para nós ver fronteiras se fechando e negando dar refúgio à massa de seres humanos em fuga.

Será isso uma verdade absoluta?

Quando no dia primeiro de maio de 1943 o então presidente Getúlio Vargas assinava o surgimento da CLT (Consolidação das Leis Trabalhistas), depois de 13 anos de preparação por renomados juristas, ele tinha um ideal em mente para os habitantes desse país: trabalho para todos. Uma nação de trabalhadores inspirada na Carta Del Lavoro italiana.

Hoje, mais de 70 anos depois desse evento, que ocorreu no Campo de São Januário na Cidade do Rio de Janeiro em um sábado de sol, a verdade de nossa era bate na porta como um marrete com a força de enorme população completamente fora do ambiente do trabalho e, portanto, além do acolhimento dos braços quase gentis da pátria mãe.

Temos, como um reflexo disso, uma violência juvenil nas ruas como nunca antes havia ocorrido em nossas terras. Menores infratores, jovens sem emprego ou formação profissional, que se tornam bandidos violentos e matam trabalhadores de carteira assinada, muitas vezes a troco de quase nada. São eles os nossos refugiados isolados por fronteiras sociais fechadas e sem chance de acolhimento pelo estado?

Nas calçadas encontramos pedintes. Muitos até acreditam que assim eles são por mera opção ou que isso é um estilo de vida resultante da falta de esforço ou vontade de estudar. Pensando assim se alivia uma parte da sociedade da responsabilidade sobre eles, pois transfere para o miserável a culpa pela própria sorte. Seriam esses então os expatriados que vivem em sua própria nação?

Como pequenos trechos de textos retirados de um livro de realismo mágico, nosso dia a dia ferve a face com as rasteiras de uma cinegrafista húngara e nem move o pescoço para a mãe que explora seus filhos sedentos de leite na esquina, bem embaixo do sinal de trânsito. A universalidade pregada em 1988 com a nova constituição ficou “no mundo”, porque está grafada em papel, mas de fato apenas na imaginação do escriba, porque não ganhou as ruas nem as mentes éticas.

Atirar pedras é fácil! Apontar as falhas e não apresentar soluções é o mesmo que criticar o outro apenas com difamatórias intenções. Não é verdade?

Pode até ser. No entanto, a solução já está posta e não precisamos de uma nova apresentação: basta cumprirmos. De leis e normas regulamentadoras estamos cheios, são 922 artigos na CLT e 36 NRs que surgiram desde 1978 afim de corrigir o universo de cuidados com o trabalhador formal. Quatro ministérios voltados quase exclusivamente para a classe produtiva, enquanto quem está fora desse ambiente, por não ser produtivo e legalizado, permanecerá além da fronteira e do abrigo, que só existe de fato, para os reais cidadãos regularizados nesse pais.

A educação das salas de aula sempre é o melhor caminho em todos níveis. Aos que não tiveram essa oportunidade, por um motivo ou outro, e hoje margeiam as avenidas dormindo sob viadutos, poderiam receber apenas o mesmo lugar de amparo que seria dado a um refugiado qualquer, que ao cruzar o oceano em busca de refúgio, viesse aportar em nossas areias. Verdade é que não há como se preocupar com sofrimento além-mar se o frio agride brasileiros em nossas calçadas nas grandes cidades.

E se a desculpa para o retardo das ações é a crise que enfrentamos, então estamos perdidos para todo o sempre. Ainda ouço as palavras de meu pai na década de 60 preparando o pequeno Joãozinho (pouco mais de seis anos) para a crise que o Brasil enfrentava. Pode ser engando meu, mas até hoje não saímos dela, pois todos os anos, ainda sou alertado para agir com cautela, afinal, estamos em crise.

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

MENTOR E A ALMA

Por João Oliveira – Psicólogo (CRP 05/32031)

Mentor olhou pela pequena janela da estalagem percebeu que esse não seria um bom dia para continuar a jornada em busca de Ulisses, desaparecido desde que partiu para a Guerra de Troia. Chovia e estava mais frio que no último inverno. Já se passaram três anos e eles ainda não tinham nenhuma informação do paradeiro de seu rei.

Telêmaco, filho de Ulisses, ainda dormia profundamente quando ele ouviu uma voz feminina mais grave, vinda do fundo do quarto. Não tinha dúvidas, era Palas Atena, a deusa da sabedoria, que mais uma vez surgia para lhe dar orientações.

- Oh! Senhora da sabedoria, mostrai-me o caminho do conhecimento. – Ao dizer isso, Mentor abaixou a cabeça numa forma de profunda reverência a deusa.

- Olhe para mim Mentor. Hoje vim lhe falar sobre as almas dos homens.

- Sim, minha senhora.

- O que sabe sobre as almas? – Questionou Palas Atena.

- Que sempre retornam ao lar, como nós querendo voltar para Ítaca. Existe uma saudade interna em todas as almas: elas querem voltar para o lar dos deuses.

- Sim, isso é verdade. Mas sobre bondade, ética, honestidade... como são as almas?

- São puras, minha senhora. Como o papel que vem do oriente carregam nesse mundo o que neles é escrito. Não são as almas boas ou más, os homens que as carregam é que moldam escrevendo sobre elas da mesma forma que fazem com o papel que vem ao mundo sem nada grafado.

O silêncio se fez presente no quarto naquele momento. Mentor continuava de cabeça abaixada como se quisesse evitar o brilho claro que emanava daquela presença divina.

- Disse-o bem Mentor. Por isso é um dos meus mais amados protegidos na Terra. No entanto, se esquece que existem papeis feitos de diferentes materiais: alguns são feitos de lascas de madeiras, outros de restos de tecido, alguns são mais leves, outros mais ásperos. Diferentes matérias primas formam diferentes tipos de texturas no papel.

O brilho aumentou de tal forma que Telêmaco despertou, mas, continuou de olhos fechados para não interferir na conversa de Pallas com Mentor. Assim, a deusa Pallas continuou sua argumentação:

- O papel guarda um pouco da essência de sua forma original e, por mais que sejam diferentes conteúdos escritos sobre ele, as pessoas poderão ter maior ou menor dificuldade de entender devido ao seu formato e cor. Assim também são as almas: elas já vêm ao mundo com uma estrutura, mesmo que pálida, pré-definida.

- E quem define como será a personalidade de uma alma?

- Os deuses Mentor, os deuses. Cada uma delas deve ter um tipo de missão. Uma produção que deve ser elevada do mundo das ideias para o mundo das pessoas. Quanto mais produções mais próximas as almas estarão de seu retorno ao mundo dos deuses pela última vez.

- Como nós, se acharmos Ulisses poderemos voltar vitoriosos para Ítaca ao lado de nosso rei?

- Como vocês se souberem imprimir boas palavras nos papéis em branco que encontrarem pela jornada.

Dito isso, Pallas desapareceu no ar deixando um forte cheiro de flores no quarto. Um lembrete que o inverno logo estaria indo embora e a primavera iria surgir. Telêmaco ainda atordoado pelo sono perguntou:

- Mentor, e como uma alma pode ter consciência de seu real papel? Como ela pode conseguir isso?

Mentor levanta a cabeça e olha com tristeza nos olhos do jovem Telêmaco dizendo:

- Se não forem tocados pelas deidades diretamente como nós, Telêmaco, elas nunca saberão. Provavelmente é justamente isso que torna valioso o livre arbítrio: ser capaz de escolher o que não se pode saber. Ser capaz ver as reais intenções da própria alma.