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sábado, 28 de fevereiro de 2015

O VENTO



Por João Oliveira

Já se passaram alguns anos desde que o velho se mudou para esse lado longínquo da floresta, desde então as visitas dos filhos e amigos foram se tornando cada vez mais escassas e ele cada vez mais recluso. Saía de casa para conferir as armadilhas e ver se algum pequeno animal se tornaria a proteína do almoço ou dar longos passeios em meio as grandes árvores. Só havia um lugar onde ainda não tinha estado: a íngreme montanha.

Já lhe disse porque ele se refugiou na floresta? Não? Por medo de doenças e da morte.

Esse mesmo velho estava junto com John Snow em 1854 quando ele descobriu a origem do foco do cólera na Broad Street em Londres. Na verdade, ele fazia parte da igreja do reverendo Henry Whitehead ajudando a identificar as moradias das pessoas que haviam contraído o cólera. Assim, foi possível descobrir que a maioria das vítimas residiam próximo a uma bomba d’água pública. Com a retirada da alça da bomba, impedindo o acesso a água, o surto da doença acabou em poucos dias. Mais tarde descobriram que uma fossa estava contaminando o poço.

Nosso personagem nessa história era um forte defensor da teoria miasmática. Essa teoria afirmava que as doenças (peste negra, cólera e etc) eram transmitidas pelo ar viciado. Ninguém, naquela época, imaginava a possibilidade da existência de bactérias ou vírus. Não existia a teoria microbiana.

Dessa forma, com medo do ar das grandes cidades e das doenças mortais que ele podia conter, o velho acabou se refugiando na floresta onde o ar era puro e fresco.

Hoje ele decidiu, pela primeira vez, subir pela encosta da montanha. Pegou vários mantimentos e seguiu calmamente em direção a parte mais alta onde podia avistar o branco da neve. Enquanto subia pensava no quanto afortunado era de ter escolhido um lugar livre das terríveis doenças e como isso lhe garantia longos anos de vida.

Distante do vento poluído de Londres ele se sentia cada vez mais jovem e, por isso mesmo, se arriscava agora a escalar o trecho mais íngreme da rocha sólida. A dificuldade só aumentava, chegou a tal ponto que abandonou as mochilas para ficar mais leve e tornar o trajeto mesmo doloroso.

Em certo ponto, agarrado apenas pelas pontas dos dedos à parede quase lisa, pensou como seria a vida de uma montanha. Sempre estática observando o nascer e o desaparecimento das civilizações. Não era o maior ser vivo do mundo, este, com certeza (pensava ele) era o oceano.

Veio o desequilíbrio, queda e morte instantânea. Tombou de uma altura de 30 metros e, durante a queda, sentiu um pouco de liberdade.

Foi o vento! O mesmo que levava as doenças pelo ar. O velho se foi dessa vida levando a certeza absoluta que era ele (o vento) responsável por carregar a morte certa nas cidades poluídas do século XIX.

A lufada de ar prosseguiu o seu caminho logo após tombar o homem balançando as árvores que deixavam frutos maduros caírem ao chão. Esses frutos alimentaram animais, serviram de adubo para outras plantas e, das sementes germinaram novas árvores frutíferas. O vento também balançou o berço da criança, a rede do idoso e inflou as velas dos navegantes e pescadores.

O vento é tão mortal quanto qualquer outra coisa desse mundo e, como tudo, também é responsável por gerar vida. Até o veneno mais poderoso de uma pequena aranha está a serviço da vida. A morte, consequência da vida, irá tocar cada ser vivente em seu devido tempo. Mesmo os que se refugiam no meio da floresta ou se escondem nas profundezas abissais.

Depois de dar à volta ao mundo o vento soprou, gentilmente, um pedaço de pano branco que cobriu o rosto do velho.


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