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quinta-feira, 5 de setembro de 2013

O GOLPE





               Sentado na praça ele olhava a ponte sobre o rio com uma mórbida intenção: dar fim ao sofrimento. Pensava se milagres existiam e, caso ele fosse abençoado algum dia, iria fazer o melhor possível para retornar ao mundo qualquer mínima dádiva recebida. A cabeça estava baixa quando sentiu alguém se sentar atrás dele.

- Bom dia! – disse o homem em tom forte e pesado.

- Poderia ser melhor. - responde sem ao menos levantar a cabeça.

- Tenho algo a lhe dizer, mas peço que não tente se virar para me olhar, isto seria um grande problema para nós dois. 

               A voz tinha uma carga de autoridade e o homem, recém-chegado, disse que sabia de todos os problemas que ele enfrentava. Das dívidas com o banco, a situação de saúde de sua esposa e a falta de dinheiro para comprar remédios. Disse mais, ele acreditava que o pobre homem tinha uma missão a cumprir e estava ali para ajudar a se tornar real.

- Mas como o senhor poderia me ajudar? – Pergunta o sofredor mantendo o olhar na ponte.

- Você acredita que R$ 10.000,00 na sua conta resolveriam seus problemas?

- Claro que sim! Melhor seria se tivesse R$ 10.000,00 todos os dias. - e riu, riu muito de sua própria ilusão.

               O misterioso homem se levantou e falou em tom profético:

- Está consumado! Dê atenção a sua missão! Boa vida!

               O nosso pequeno desafortunado não se conteve e virou o corpo para ver quem estava falando com ele: ninguém! O banco da praça estava vazio e nem menos alguém por perto havia. Ele estava sozinho naquele lugar. Uma ideia passou imediatamente por sua cabeça, além de endividado agora estava, também, ficando doido.

               No outro dia uma surpresa em seu saldo: R$ 10.000,00 haviam sido depositados! Isto foi um enorme susto e, preocupado, foi ao banco saber se não tinha ocorrido um engano. Estava tudo certo, o depósito havia sido feito em dinheiro em outra agência e não havia nenhuma reclamação sobre equívocos de contas. O dinheiro estava ali e podia ser usado. 

               Tirou um pouco para comprar remédios e resolveu aguardar mais um pouco para ver se o dono do dinheiro reclamaria. Isto não ocorreu e, no outro dia, mais R$ 10.000,00 foram depositados. O impossível estava acontecendo, o homem misterioso da praça estava fazendo valer sua palavra. Seus problemas acabaram!

               Pagou as dividas, comprou remédios, mudou de casa, comprou um novo carro, viajou e, todos os dias, mais R$ 10.000,00 apareciam em sua conta bancária. Tudo estava indo bem até que um sonho o despertou no meio da noite: e a tal missão?

               Um pensamento obsessivo tomou conta de todo seu ser, que missão seria essa? Será que este homem misterioso era, de fato, o demônio que queria sua alma? Seria um traficante tentando lavar dinheiro e, aguardando o momento certo para tomar tudo de volta com juros? Seria essa missão ter de matar alguém e o dinheiro era o pagamento por este trabalho que iria realizar no futuro?

               A vida se tornou um inferno. Não conseguia mais comer nem dormir direito, pois, a preocupação com o “trabalho” para pagar tanto dinheiro não deveria ser coisa fácil. Como poderia saber o que iria ter de fazer? Enfim, surgiu uma sensacional ideia, voltou à praça e se sentou no mesmo banco.

               Durante dias vez o mesmo ritual. Levantava cedo, sentava no banco da praça e dali só saía ao anoitecer. Não tinha fome mesmo, pelo menos os pombos lhe faziam companhia. No sétimo dia sentiu o calor de uma presença sentado atrás dele:

- Por que me chamou? – A voz não era nada amigável.

- Caro senhor, estou em sofrimento com a responsabilidade que me passou. Este dinheiro todos os dias e não sei o que fazer para retribuir tal generosidade.

- Generosidade? Sofrimento? Não entendo sua confusão, sofria por não ter dinheiro, agora sofre por não saber o que fazer com ele? – O misterioso homem se levantou –  Não se preocupe, está consumado, não terá mais este sofrimento nem compromisso. Viva e seja feliz!

               Desta vez um vento frio soprou e uma nuvem negra e espessa cobriu o sol. Ao longe ele ouviu um trovão e teve certeza que estava livre do compromisso da tal missão. Virou-se e, como já era esperado, não viu ninguém na praça.

               Ao chegar à casa se deu conta que todo o dinheiro que estava depositado havia desaparecido e, mais ainda, sua dívida agora era muito maior. Fez as contas e, nem mesmo vendendo tudo que tinha conseguiria pagar o saldo negativo no banco. Não havia construído nada produtivo quando estava com recursos e agora não tinha como retroceder. Voltou à praça por vários anos, mas nunca mais alguém se sentou próximo a ele.

               Pode ser que, ao pedir, sejamos atendidos. No entanto antes é necessário ter um plano de ação de resposta ao perene universo que, pacientemente, pode dar e tirar: tudo! Ele fará isso sim, não apenas uma vez, mas sempre que estivermos fora de nossa missão.

               Qual é a sua?

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